marifer vargas

Macaray, Venezuela

Foto: Arquivo pessoal

Marifer Vargas tem 37 anos e nasceu na cidade de Maracay, na Venezuela. Fazem dois anos que ela mora aqui no Brasil. Tudo começou em 2016, quando seu companheiro, o também venezuelano Carlos Escalona, trabalhava como jornalista em um canal de TV. Ele descobriu um enorme esquema de corrupção e denunciou. Por isso, ele e Marifer foram sequestrados e ameaçados por pessoas poderosas envolvidas no caso. Esse episódio provocou medo e inquietação no casal. Então eles decidiram que seria mais seguro deixar o país o quanto antes. Carlos, que é um dos cinco refugiados da Venezuela reconhecidos por perseguição política aqui no Brasil, chegou na metade de 2016. Já Marifer ficou em Maracay com a filha Miranda, pois não tinham dinheiro suficiente para pagar as passagens.

 

Marifer viveu dias intensos e de muito medo, teve depressão e emagreceu 14 quilos. "Eu fiquei apavorada e não queria mais sair de casa. Aprendi a fazer tudo que precisava pela internet. Não conseguia pegar táxi ou ônibus". E além disso, também havia um outro cenário caótico envolvido: a intensa crise política acontecendo na Venezuela. Mas enquanto isso, aqui no Brasil, Carlos ganhava dinheiro cantando nos ônibus. E toda semana, ele mandava um pouco para a Marifer guardar.

abrigo

Foto: Arquivo Pessoal

Marifer e sua filha foram de ônibus para Boa Vista, em Roraima. E no dia 6 de agosto de 2017, elas desembarcaram na cidade de São Paulo para viverem no abrigo da Missão Paz, no bairro da Liberdade. Lá ficaram durante 2 meses. Marifer lembra com afeto sobre a sua primeira noite no local. "Eu fui muito bem recebida. Eu não dormi com medo. Eu deitei na cama, e senti o cheiro do quarto da minha mãe. E eu me senti em paz. Eu me senti em casa."

independência

Na Venezuela, a professora de história e geografia Marifer Vergas sempre foi uma mulher forte, independente, que trabalhava e nunca pedia nada a ninguém. Chegar no Brasil, com 35 anos, e enxergar-se totalmente dependente de pessoas foi umas das coisas mais difíceis que precisou enfrentar. “Isso foi o que mais me chocou, o que mais me machucou. No abrigo, por exemplo, precisar pedir um sabonete para um funcionário. Ou aguardar alguém para me servir comida."

 

A vida de Marifer em São Paulo foi melhorando e após 2 meses no abrigo da missão paz, ela e sua família conseguiram sair do abrigo e encontrar uma casa. Seu companheiro conseguiu um emprego, sua filha começou a estudar, mas Marifer ainda sentia-se desconfortável por depender financeiramente do marido. E se questionava: "Vou ter que pedir dinheiro para ele? Para comprar um pacote de absorvente? Ou um sorvete para a minha filha?".

 

A inquietação e o desejo intenso por sua independência e liberdade novamente a motivaram ainda mais na busca por um emprego. Marifer chegou a trabalhar em um restaurante, mas não deu muito certo.

nossa janela

"Eu consegui recuperar o que eu perdi na Venezuela. E quando eu falo em perder, não me refiro a coisas materiais. Aqui eu recuperei minha independência e minha autonomia como mulher."

Marifer e Carlos perceberam que em São Paulo havia espaço para culinária de todos os lugares do mundo. Mas também notou que não havia muitas opções venezuelanas.Então ela e seu marido decidiram criar o "Nossa Janela", em que fazem comida típica da Venezuela para empresas, feiras, escolas. Eles nunca tinham cozinhado profissionalmente antes. Mas Marifer fez questão de estudar a história da gastronomia do seu país, porque o objetivo não é apenas alimentar as pessoas, mas também educar, ensinar um pouco sobre a sua cultura e oferecer uma experiência gastronômica completa. "Cada prato tem um contexto histórico."

Foto: Arquivo Pessoal

preconceito

"Tem gente que olha para nós, refugiados, e pensa: 'nossa, coitados.' Mas não sabem a força que temos aqui dentro."

são paulo em uma palavra

A vida de mulheres imigrantes latino-americanas na cidade de São Paulo

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