A vida de mulheres imigrantes latino-americanas na cidade de São Paulo

MARIA PAULA botero

Bogotá, Colômbia

Maria Paula Botero nasceu em Bogotá, na Colômbia, e tem 29 anos. Ela mora no Brasil há três anos. É graduada em psicologia, mas aqui em São Paulo, trabalha dando aulas particulares de espanhol. 

 

Quando perguntei porque ela veio pra cá, disse timidamente, mas sem titubear: “ah... eu vim por amor.” Maria conheceu sua atual companheira na faculdade. A paulistana Marina Caldeira fazia intercâmbio em Bogotá, enquanto Maria estudava seu mestrado. Após seis meses, Marina voltou para São Paulo, mas elas continuaram o relacionamento à distância. E foi assim que a colombiana teve a oportunidade de conhecer um pouco mais da inexplorada cidade paulista. “Não, nunca, eu jamais tinha cogitado visitar o Brasil.” 

Sempre que tinha férias, Maria desembarcava em São Paulo para ficar os dias com a namorada. Alguns meses depois, o casal decidiu que seria bom a Maria ficar um tempo em São Paulo, para estreitar o relacionamento e também aprender o português.

O primeiro e maior choque cultural com a cidade foi a língua. “Mesmo o idioma sendo parecido, ainda é difícil para os espanhóis falantes entender o português.” Outra questão foi o impasse e a demora para conseguir todos os documentos necessários para morar no Brasil. “As instituições são muito difíceis com as pessoas migrantes, principalmente quando são latino-americanos.” Maria conta que precisou deslocar-se para o interior de São Paulo para conseguir sua carteira de trabalho, pois na capital, o processo para obter o documento poderia levar meses.

 

A forma como as pessoas se relacionam em nosso país também foi uma surpresa e tanto para a colombiana. No começo, ela achava estranho quando um desconhecido a cumprimentava com um caloroso abraço, por exemplo. “Bogotá é uma cidade muito legal com as pessoas, mas elas não são tão próximas como aqui, por exemplo. Aqui existe uma relação muito mais íntima entre as pessoas.”


Desde que chegou, Maria passou por episódios de preconceito. E não são situações isoladas e raras. Elas são recorrentes e repetitivas. 

 

Como por exemplo, uma vez que utilizou o serviço do uber. Ao ouvir o sotaque diferente de Maria, o curioso motorista perguntou de onde ela era. Quando ela disse Colômbia, o homem começou a fazer comentários irônicos e logo associou o país à Pablo Escobar, o famoso traficante colombiano.

 

Outro ponto que aborrece Maria é o tratamento infantilizado, que a coloca em uma posição desconfortável de extrema fragilidade, vitimismo e incapacidade. “Você pode falar coisas bem legais. Coisas que na sua língua soariam incríveis. Mas o fato de ter um sotaque muda a forma como as pessoas te percebem. Quanto mais sotaque você tem, menos inteligente você parece. O imigrante já é infantilizado de qualquer forma, mais ainda quando ele tem traços indígenas. Já dizem logo “ah, coitado”.”

"Ficava cá no meu canto calada..."

 

O primeiro ano aqui em São Paulo foi bastante difícil. Estava longe da família, dos amigos, com dificuldades para se adaptar e se comunicar. Esse cenário fez com que Botero  desenvolvesse crises de ansiedade. Algumas vezes foi correndo para o hospital, achando que morreria a qualquer instante. Não dormia e não comia direito. Mesmo estudando questões relacionadas à ansiedade na faculdade de psicologia, ela não conseguia identificar que isso a estava atingindo. Só após alguns meses, percebeu que tudo isso que lhe ocorria não tinha a ver com seu físico. Era seu psicológico que estava doente.


Ao identificar a necessidade de ajuda, procurou uma psicóloga através de um grupo no facebook. Recebeu diversas respostas positivas, mas então surgiu um novo problema: não havia uma profissional que falasse seu idioma. “Tratei meu problema de ansiedade falando português mesmo.” A barreira do idioma ainda não dominado fez com que ela tivesse alguns entraves, e não se expressasse da forma que ela realmente gostaria. Mas ainda assim, a terapia lhe ajudou muito em sua recuperação. Além disso, ela também recorreu a soluções alternativas que pudessem auxiliá-la ainda mais. Começou a meditar e escrever. Escrevendo, Maria naturalmente conseguia ser ela mesma.

“Tantas vezes eu soltei... foguete…”

MILBI (Rede de Mulheres Imigrantes Lésbicas e Bissexuais - SP)

“Varri a casa com vassoura fina, armei a rede na varanda, enfeitada com bonina…”

Maria encontrou um novo mundo em São Paulo. E nesse mundo, ela descobriu que tinha espaço para ser alguém diferente do que era. Botero comentou que Bogotá é uma cidade um pouco mais conservadora. “Na Colômbia, eu era uma mulher que performava feminilidade. Eu tinha cabelo comprido, alisava, me vestia mais menininha. Mesmo sendo lésbica, eu tentava disfarçar.” Quando chegou em São Paulo, enxergou novos caminhos, novas possibilidades para mudar. “Pouco tempo depois que eu cheguei ao Brasil, cortei o cabelo, senti muito mais liberdade.” Além do cabelo curto, Maria normalmente veste roupas mais masculinas e quase não usa maquiagem. São Paulo lhe proporcionou um ambiente acolhedor, da qual ela não imaginava. E então, ela percebeu que teria liberdade para adotar a aparência que realmente a faria feliz e confortável consigo mesma. “Aqui, comecei a frequentar espaços feministas e deixei de performar feminilidade. Aqui, eu me reencontrei.”

Em fevereiro de 2018, em meio a uma dessas crises de ansiedade foi que nasceu a rede Milbi. Ela já havia procurado alguns grupos de mulheres imigrantes aqui em São Paulo. Mas não se sentia completamente representada, por se identificar como uma mulher lésbica. Sentia falta de compartilhar questões relacionadas a sua homossexualidade.

 

Começou a procurar outras mulheres imigrantes lésbicas e propôs rodas de conversa entre elas. “Vieram muitas mulheres, inclusive brasileiras que se simpatizavam com a causa. Foi bem bacana.” Atualmente, 20 mulheres de sete nacionalidades diferentes participam do coletivo. A Rede Milbi é o único coletivo com esse recorte: mulheres lésbicas imigrantes.

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